Fora de ordem

Quem é o fígado

            O fígado, órgão vital, é a maior víscera maciça do nosso corpo. Sua lendária capacidade regenerativa provém da cultura clássica. A tragédia grega de Ésquilo consagrou a imagem de Prometeu acorrentado sobre a rocha, punido por Zeus com a sina de ter seu fígado devorado por uma águia durante o dia. À noite, o órgão refazia-se, para ser dilacerado pelo bico impiedoso da ave, no dia seguinte, em um ciclo eterno.

            Talvez fosse esse o sofrimento que Machado de Assis tivesse em mente, quando escreveu, em Memórias Póstumas de Brás Cubas: “Suporta-se com muita paciência a dor no fígado alheio.” Mas, afinal de contas, o fígado dói? Ele pode se regenerar de um dia para outro? Qual a sua importância na nossa saúde?

            Das inúmeras funções que exerce, as principais são: 1) produção e excreção da bile, importante na digestão e absorção de gorduras e de algumas vitaminas, 2) metabolização de lípides, proteínas, carboidratos e metais como ferro e cobre,  3) produção de proteínas do sangue como a albumina e fatores de coagulação, 4) metabolização da bilirrubina, dos hormônios, medicamentos e drogas como o álcool, 5) armazenamento de energia na forma de glicogênio, 6) defesa imunológica contra infecções por microorganismos. Incansável no desempenho de tarefas vitais, não é inervado, e por este motivo, não dói. O que pode provocar a sensação de dor nessa região do corpo é o fato do fígado estar guardado sob as costelas, e com a superfície envolvida por uma cápsula, sendo ambas as estruturas inervadas. O importante é lembrar que não devemos esperar sentir dor na região para começar a cuidar da saúde. “O fígado sofre calado”, já advertia o título do livro publicado em 2002 pelo saudoso Professor Doutor Caetano.

          O fígado realmente apresenta notável capacidade regenerativa. Mesmo que se removam, em cirurgia, dois terços do órgão, a parte remanescente trabalha intensamente de maneira a recuperar o tamanho original em três meses. Contudo, certas agressões como o abuso de álcool e outras drogas tóxicas, infecções pelo vírus da hepatite B ou C não tratadas podem causar destruição das células funcionantes, que são substituídas por fibrose. Esse processo ocorre silenciosamente por anos, até que a cirrose se estabeleça. Quando a doença atingir estado avançado, o transplante hepático poderá vir a ser a única solução para salvar a vida do indivíduo.

            Há milênios, a humanidade busca compreender quem é o fígado e quais são suas funções. É curioso que a Medicina Tradicional Chinesa o associe ao sentimento de raiva. Na mesma linha, em nossa língua “desopilar o fígado” significa ‘divertir-se para afastar os problemas do espírito’. Mas foi Pablo Neruda que soube, como ninguém, celebrar na “Ode ao Fígado” toda a sua majestade e riqueza de virtudes.

“Modesto,
organizado
amigo,
trabalhador
profundo, (…)
… monarca obscuro,
distribuidor de mel e de venenos,
regulador de sais,
de ti espero justiça:
Amo a vida: cumpre! Trabalha!
Não detenhas o meu canto.”

(Fragmentos de “Ode ao Fígado”, de Pablo Neruda*)

Referências Bibliográficas:

  1. Ésquilo. Prometeu Acorrentado. In Teatro grego. São Paulo, Companhia das Letras, 1987.
  2. Silva, Luiz Caetano da. O Figado Sofre Calado. 1ª Edição. Rio de Janeiro, Editora Atheneu, 2002.
  3. Assis, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. 1ª edição, São Paulo, Editora Penguin, 2014.
  4. Arrese, Marco. The liver in poetry: Neruda’s ‘Ode to the Liver’. Liver International 2008.
  5. Neruda, Pablo. Nuevas odas elementales. Buenos Aires, Losada, 1956.
  6. (*) Japiassu, Celso. Tradução para o português de “Oda al Hígado”, de Pablo Neruda, disponível na Internet, sem indexação para citação.

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